Juro do rotativo do cartão de crédito cai a 436,2% ao ano em julho, diz BC

Taxa recuou de 442,4% em junho, mas segue acima de 400% ao ano; entenda por que o número não significa descumprimento da lei do teto de juros

O juro médio do rotativo do cartão de crédito recuou de 442,4% ao ano em junho para 436,2% em julho. Os dados são do Banco Central e foram divulgados nesta semana. É uma queda real, mas o número ainda assusta: quatrocentos e trinta e seis por cento ao ano é o tipo de taxa que transforma uma dívida pequena em um problema financeiro sério em pouco tempo.

Outros segmentos do cartão também apresentaram redução. A taxa do parcelado, aquela cobrada quando o consumidor divide uma compra mas não liquida tudo na data do vencimento, passou de 191,4% para 189,3% ao ano. Já o juro total do cartão, que consolida rotativo e parcelado numa única medição, caiu de 97,3% para 91,6% ao ano.

Por que o número parece absurdo, mas não é o que você paga

Quando o Banco Central divulga taxas na casa dos 400% ao ano, a leitura imediata é de que os bancos estão cobrando isso de todo mundo. Não é bem assim.

A metodologia do BC pega o juro mensal que o banco cobra e o extrapola para doze meses. É um cálculo matemático de anualização, não uma taxa que o consumidor realmente paga durante um ano inteiro. Na prática, quem usa o rotativo do cartão, o saldo devedor que sobra quando o cliente paga menos do que o total da fatura, costuma ficar nessa situação por poucos dias ou semanas, não por doze meses. A taxa anualizada funciona mais como um termômetro do custo por unidade de tempo do que uma conta que alguém de fato recebe.

O BC deixou claro que não vai encerrar essa série histórica. Ela existe para medir a velocidade com que os juros sobem ou caem ao longo do tempo, e também entra no cálculo da taxa média cobrada pelo sistema financeiro como um todo.

E o teto de juros aprovado pelo Congresso?

Em janeiro de 2024, entrou em vigor uma lei aprovada pelo Congresso que limita os juros e encargos do rotativo e do parcelado a 100% do valor principal da dívida. Ou seja: quem deve R$ 1.000 não pode ser cobrado por mais de R$ 1.000 em juros, independentemente de quanto tempo a dívida fique em aberto.

Os números divulgados pelo BC, bem acima desse teto, podem parecer uma contradição. Não são. A taxa anualizada que aparece nas estatísticas do BC é um cálculo projetado, como explicado acima. O teto legal, por sua vez, se aplica ao valor total acumulado de juros e encargos cobrados sobre o saldo devedor real do cliente. São métricas diferentes, medindo coisas diferentes.

O juro do rotativo do cartão de crédito que aparece nas estatísticas do BC, portanto, não indica descumprimento da lei. É um registro estatístico padronizado que permite comparar o custo do crédito ao longo dos meses e anos.

O que esse recuo sinaliza na prática

A queda de junho para julho é consistente, mesmo que modesta. Taxas nessa faixa respondem, com alguma defasagem, ao movimento da Selic, a taxa básica de juros definida pelo Copom (Comitê de Política Monetária do Banco Central). Quando a Selic sobe, o custo de captação dos bancos aumenta e as taxas do crédito tendem a subir junto. O caminho inverso também acontece, embora de forma mais lenta e desigual.

Para quem está com dívida no rotativo, o alívio estatístico muda pouco. Mesmo num cenário de queda gradual, o custo do juro rotativo do cartão de crédito continua sendo um dos mais altos do sistema financeiro brasileiro. Negociar a dívida diretamente com o banco, converter o saldo para uma modalidade com juros menores ou buscar crédito pessoal com taxa mais baixa para liquidar o cartão costumam sair mais baratos do que deixar o saldo girar no rotativo.

O dado de agosto será divulgado pelo BC no próximo ciclo de relatórios de crédito. Qualquer movimento de alta da Selic nas próximas reuniões do Copom tende a pressionar de volta as taxas do crédito ao consumidor, incluindo o cartão.