Cerca de uma hora antes de Donald Trump subir ao palco para discursar, Gabriel Perez já sabia o que estava escrito no teleprompter. Ele usou essa vantagem para apostar, com dinheiro real, sobre o conteúdo dos pronunciamentos presidenciais em uma plataforma chamada Kalshi. Quando a história veio a público, o caso expôs um risco concreto que os mercados de previsão carregam quando funcionários com acesso a informações sigilosas passam a operar neles.
Perez concordou em pagar um total de mais de US$ 172 mil para encerrar a investigação aberta pela Commodity Futures Trading Commission (CFTC), o órgão americano que regula mercados de derivativos e contratos futuros. O acordo inclui uma multa de US$ 65 mil e a devolução de US$ 107 mil em lucros obtidos de forma irregular. Ele também ficará proibido de negociar nessas plataformas por três anos. Não houve admissão formal de culpa.
Como funcionou o esquema
Os mercados de previsão são plataformas onde usuários apostam dinheiro real sobre o resultado de eventos futuros: desde resultados esportivos até eleições políticas. A Kalshi e a Polymarket são as mais conhecidas, e ambas ganharam tração enorme nos últimos 18 meses, especialmente durante o ciclo eleitoral americano de 2024.
Dentro dessas plataformas existem os chamados “mercados de menções”: apostas sobre se uma pessoa pública vai usar determinada palavra ou expressão em um discurso, entrevista ou teleconferência. É exatamente aí que Perez operou. Entre dezembro de 2025 e fevereiro de 2026, ele fez apostas quase exclusivamente relacionadas a Trump e a esportes na Kalshi, incluindo perguntas do tipo: “O que Trump dirá durante seu discurso no Detroit Economic Club?”.
A vantagem de Perez sobre qualquer outro apostador era direta: como operador de teleprompter da Casa Branca, ele tinha acesso ao texto dos discursos aproximadamente uma hora antes de eles acontecerem. A CFTC foi direta na sua conclusão: ele sabia que aquelas informações eram confidenciais e não deveriam sair dos muros da Casa Branca.
“Como alguém que trabalhava na Casa Branca, Perez entendia que as informações que obtinha durante seu trabalho eram confidenciais e não deveriam ser compartilhadas com ninguém fora da Casa Branca.”
CFTC, em sua ordem de cessação e desistência
Quem descobriu e como
Foi a própria Kalshi que identificou o problema. A plataforma detectou padrões de negociação anômalos em março e encaminhou o caso à CFTC, conforme a Bloomberg noticiou em julho. Na época, um porta-voz da Casa Branca confirmou que um funcionário havia sido colocado em licença administrativa não remunerada, mas sem revelar o nome.
Robert DeNault, chefe de fiscalização da Kalshi, se pronunciou publicamente após a divulgação do acordo.
“Não importa quem você seja: se violar nossas regras ou a lei federal, enfrentará as consequências.”
Robert DeNault, chefe de fiscalização da Kalshi, em publicação no X
A CFTC reconheceu a cooperação de Perez com a investigação e classificou a multa de US$ 65 mil como um “desconto substancial” em relação ao que seria aplicado sem essa colaboração.
O mercado de previsões e o problema do insider trading
O caso de Gabriel Perez não é um incidente isolado. É o mais recente de uma série que começou a preocupar legisladores e reguladores americanos à medida que essas plataformas cresceram. Insider trading é o uso de informação privilegiada, à qual outros participantes do mercado não têm acesso, para obter vantagem financeira. No mercado de ações, isso é crime há décadas. Nos mercados de previsão, a regulação ainda está sendo construída.
A CFTC classifica plataformas como Kalshi como bolsas de derivativos, o que as coloca sob sua jurisdição, mas o arcabouço legal ainda tem lacunas. Parlamentares americanos já apresentaram projetos de lei tentando restringir certas categorias de apostas, e a própria Casa Branca chegou a alertar seus funcionários contra o uso de informações sigilosas para operar nessas plataformas, o que, no mínimo, sugere que o problema de Perez não era desconhecido internamente.
Kalshi e Polymarket afirmam monitorar ativamente as negociações e repassar casos suspeitos às autoridades. Mas quanto mais popular o mercado de previsões se tornar, maior será o incentivo para que pessoas com acesso antecipado a informações relevantes tentem lucrar antes dos demais. O regulador americano resolveu este caso com multa e proibição. O desafio seguinte é criar mecanismos capazes de identificar os próximos antes que o dinheiro já tenha mudado de mãos.

