Varejo enfrenta trimestre difícil, mas C&A se destaca, aponta Morgan Stanley

Banco americano mantém C&A como principal aposta no setor; Magazine Luiza viu GMV online cair 12% e Casas Bahia desacelerou forte no 2T26.

O segundo trimestre de 2026 foi um período para esquecer na maior parte do varejo brasileiro. Consumo mais fraco, juros ainda elevados e margens pressionadas levaram diversas companhias a rever as projeções para o ano. Num cenário assim, crescer já é uma conquista. A C&A cresceu 4,1% nas vendas comparáveis de vestuário no período, e esse número foi suficiente para que o Morgan Stanley reforçasse a empresa como sua principal recomendação de sobrepeso no setor, o que, na linguagem dos bancos de investimento, significa que o banco acredita que a ação tem potencial acima da média do mercado.

O relatório do banco americano mostra um setor dividido. De um lado, empresas com crescimento estrutural e posicionamento competitivo sólido. Do outro, varejistas que continuam perdendo espaço para concorrentes maiores ou enfrentando questões operacionais sérias. A Casas Bahia, por exemplo, desacelerou o crescimento para 6% no segundo trimestre, ante os 14% registrados no primeiro, e ainda carrega o peso de um processo de recuperação judicial que preocupa o mercado.

C&A e Renner num trimestre complicado para o vestuário

A Copa do Mundo Feminina deixou uma marca inesperada no varejo físico. Durante o torneio, o fluxo de consumidores em shopping centers recuou de forma relevante, afetando especialmente varejistas de moda como C&A e Lojas Renner. Mesmo assim, as duas empresas registraram crescimento positivo nas vendas em mesmas lojas, o que os analistas chamam de SSS (same-store sales), um indicador que mede o desempenho apenas das lojas que já existiam no período anterior, excluindo o efeito de novas aberturas.

O dado da C&A chama atenção justamente porque o trimestre foi considerado particularmente difícil. Crescer 4,1% nas vendas comparáveis com tráfego reduzido em shoppings sugere que a empresa está convertendo melhor os consumidores que aparecem. O Morgan Stanley também destacou que as ações da companhia negociam a múltiplos bastante descontados em relação ao potencial de geração de lucros, o que, na prática, significa que o mercado ainda não precificou completamente a melhora operacional que o banco enxerga.

Magazine Luiza: queda no e-commerce, aceleração nas lojas

O quadro do Magazine Luiza no segundo trimestre é contraditório. O GMV online, volume total de mercadorias vendidas pela plataforma digital, caiu 12% em relação ao mesmo período de 2025. Não é um número pequeno. Ao mesmo tempo, as vendas comparáveis nas lojas físicas cresceram 10%, acelerando em relação aos 6% do primeiro trimestre. O banco aponta a demanda por eletrônicos e bens duráveis como o principal motor do desempenho presencial, uma dinâmica que tende a favorecer o ambiente físico, onde o consumidor pode ver e testar o produto antes de comprar.

A queda no digital, porém, é um sinal que merece atenção. O Mercado Livre continua ampliando sua liderança no e-commerce brasileiro, e a Shopee também segue ganhando terreno. Recuperar participação no canal online exige mais do que ter produto: exige logística, preço competitivo e experiência de compra capaz de disputar a atenção de plataformas que já têm o hábito do consumidor consolidado.

Casas Bahia e o impacto do fechamento de lojas nos concorrentes

A recuperação judicial da Casas Bahia virou um tema central nas projeções do setor. O Morgan Stanley avalia que o fechamento de aproximadamente 30% das lojas da companhia tende a redistribuir parte das vendas para concorrentes, com Mercado Livre e Magazine Luiza aparecendo como os principais beneficiários potenciais desse movimento. A lógica é direta: o consumidor que perde acesso a uma Casas Bahia próxima vai comprar em outro lugar, e os varejistas com maior capilaridade ou presença digital levam vantagem nessa transição.

No supermercado e atacarejo, o banco manteve tom mais cauteloso. O Assaí apresentou alguma melhora operacional, mas ainda opera num ambiente de consumo pressionado, onde o preço continua sendo o critério decisivo para boa parte dos brasileiros.

E-commerce: Mercado Livre consolida liderança, menores perdem espaço

Uma das leituras mais claras do relatório é sobre a concentração do e-commerce brasileiro. O Mercado Livre segue no topo, a Shopee cresce e ambas ganham participação. Os operadores menores continuam perdendo espaço. O Morgan Stanley observou que o ambiente competitivo permanece racional, sem guerra de preços destruindo margens de toda a indústria, mas a consolidação em torno de poucos grandes players é uma tendência que parece longe de se reverter.

Dados de aplicativos citados no relatório indicam que o Mercado Livre continua atraindo usuários em ritmo acelerado no início do terceiro trimestre. Executivos de varejistas brasileiros, por outro lado, relataram que o fluxo de consumidores nas lojas físicas voltou ao normal após o fim da Copa do Mundo, boa notícia para quem dependia desse tráfego para fechar as metas do período.

México: Tiendas 3B cresce, Walmex perde ritmo

O relatório também trouxe um panorama do varejo no México, onde a divergência entre os players ficou evidente. A Tiendas 3B ampliou fortemente seu crescimento no segundo trimestre, enquanto a Walmex perdeu ritmo. A diferença reflete dinâmicas locais de consumo e posicionamento competitivo, num mercado que também enfrenta pressão sobre o poder de compra das famílias.

O que o Morgan Stanley está de olho para o segundo semestre

A preferência do banco segue ancorada em empresas com crescimento estrutural: Mercado Livre para a América Latina como um todo, e a C&A entre os nomes favoritos no varejo brasileiro. Nas duas escolhas há uma lógica parecida, companhias que conseguem crescer mesmo quando o ambiente não ajuda, e que ainda negociam a preços que o banco considera atrativos.

Os pontos a observar nos próximos meses são a evolução do tráfego nas lojas físicas após o fim da Copa, o ritmo de fechamento das unidades da Casas Bahia e como essa redistribuição de vendas vai aparecer nos números dos concorrentes. O ambiente de juros altos segue sendo o fator de risco que pesa sobre todo o setor, e o terceiro trimestre vai indicar se a cautela dos consumidores identificada no relatório tem raízes mais profundas do que o calendário sugeria.